25 de Junho de 2022
Luta antimanicomial: movimento traz reflexões importantes
Cuidados com a saúde mental tiveram mudanças importantes de paradigma nos últimos 40 anos
Apesar de soar absurdo, ainda hoje se mantém o senso comum que a única solução para pessoas que apresentam transtornos e doenças mentais é a internação. Em núcleos familiares, por exemplo, o tabu que impede a discussão das tramas relacionais que levam a disfunções de comportamento, infelizmente, ainda leva muitos a resumirem um comportamento indesejado ou incômodo como caso de hospício: "interna que resolve".

Como afirmou, certa vez, o criador de conteúdo digital Luiz Guilherme Prado, "os problemas sempre estiveram aí. Nós somos a primeira geração que teve coragem pra falar sobre isso. A primeira geração que entendeu que sofrer calado não te faz mais forte, nem menos doente". E esse é o espírito que permeia a luta antimanicomial, lembrada hoje (18 de maio).

Conhecidos como manicômios ou hospícios, os hospitais psiquiátricos especializados no tratamento de doenças e de transtornos mentais costumam ser associados a imagens de terror e prisão. Conforme lembra Fernando Kinker, docente do Campus Baixada Santista da Unifesp, esses ambientes eram, até a reforma psiquiátrica ocorrida na década de 1980, o destino de pessoas com problemas hoje contornáveis em consultórios comuns. Fossem esses problemas uma crise de ansiedade passageira ou um grau leve de borderline.

A diminuição de leitos se tornou uma conquista importante , pois a internação é a solução mais simples. Já o acompanhamento cotidiano, com contato com a família, apoio, é muito mais complexo, exige uma disponibilidade de recursos e pessoas, mudar a cultura do ambiente, como a pessoa é vista.

Kinker aponta, entretanto, que as transformações começaram a retroceder a partir de 2015, com o fortalecimento de comunidades terapêuticas e da inserção de hospitais psiquiátricos na rede de atenção básica à saúde.

Para Kinker, é importante mais do que nunca entender o lugar que os hospitais psiquiátricos devem ocupar. "Todo aquele entendimento sobre sofrimento psíquico precisa continuar se transformando. Os hospitais são locais de contenção do problema, que não acompanham o cotidiano de quem passa pelo sofrimento, e tampouco propõem soluções".

Nos últimos anos, há uma tentativa de reversão da política de saude mental. Essa mudança reflete um movimento de um setor mais conservador da sociedade, que foi se expressando nas políticas públicas. Mas a luta antimanicomial deve ser social, e solicita uma mudança na assistência à saúde mental. "A preocupação hoje é retomar a trajetória da política anterior a 2016, que possibilita que as pessoas com sofrimento psíquico tenham voz e tenham acesso a um verdadeiro tratamento sem corte das relações sociais", finaliza.

18/05/2022 14:56
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