16 de Dezembro de 2017
A fera ferida REVISTA VEJA/NACIONAL
Entre a vida e a morte, o trator Sérgio Motta desfalca a equipe de FHC

Expedito Filho e Karina Pastore

O comando da divisão Panzer do presidente Fernando Henrique Cardoso está fora de combate. Bombardeado por uma infecção pulmonar que se uniu a uma doença crônica, o ministro Sérgio Motta foi internado pela quinta vez desde o início do governo. Ate a noite de sexta-feira, Motta estava entre a vida e a malte na unidade de terapia intensiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O ministro das Comunicações tem demonstrado incrível capacidade para resistir aos avanços de sua doença. Mas, de acordo com a opinião dos médicos. ainda que consiga superar a crise. estará com a saúde severamente comprometida e não deverá reassumir suas funções políticas. Na sexta-feira, antes de viajar para Santiago do Chile em missão oficial, o presidente Fernando Henrique fez uma mudança no roteiro para visitar o amigo no hospital. Foi uma visita sem diálogos. Sob efeito de sedativos, Sergião estava inconsciente e só respirava graças a tubos que bombeavam oxigênio diretamente em seus pulmões. Fernando Henrique conversou com Wilma, mulher de Motta, e afirmou que tinha esperanças na recuperação do amigo. "Já estive ao lado do Sérgio Motta em situações parecidas outras vezes, e ele conseguiu sair". disse FHC.

Desde que Motta foi à posse de José Serra no Ministério da Saúde, semanas atrás, segurando uma máquina de oxigênio com dois canos enfiados nas narinas para respirar um ar mais concentrado, os políticos começaram a conversar pelos corredores e a fazer apostas sobre o tempo em que ele permaneceria de pé até uma próxima internação. A saída do trator cria três grandes rombos em Brasília, o primeiro administrativo. Desde que o cargo de ministro das Comunicações foi ocupado por Antonio Carlos Magalhães, durante o governo Sarney. a pasta só teve titulares sern brilho. Até a chegada de Motta. Sacudindo a viciada máquina administrativa que encontrou ali, baixou o preço dos telefones, tomou a abertura da banda B uma realidade e conseguiu que o caminho da privatização do sistema Telebrás se tornasse irreversível. O segundo rombo está na estrutura de poder, já que Motta sempre operou como o único ministro capaz de enfrentar a oposição. O terceiro rombo é na engrenagem da campanha eleitoral. Com ele, o apoio do empresariado e as alianças regionais sempre foram selados num linguajar direto e objetivo, agradando às duas partes. "O afastamento de Motta seria o pior desfalque que o governo poderia sofrer". avaliou na semana passada o deputado Luís Eduardo Magalhães, líder do governo na Câmara.

A doença de Motta interrompe uma das mais meteóricas carreiras políticas da História do país. Com a mesma velocidade com que apareceu em Brasília, recolheu-se na semana passada. Acompanhando o presidente como uma sombra durante duas décadas sem jamais ter sido candidato a um cargo eleitoral. Motta transformou-se numa das figuras centrais da República. E destoava da cúpula do governo. Única voz grossa da Esplanada, isso em termos figurativos já que o ministro sempre exibiu um falsete que nunca combinou com seu corpanzil. Motta comprou briga com aliados como ACM e com os inimigos da CUT. Até mesmo as críticas internas fez em público. Certa vez, numa reunião com o PMDB, em 1995, disse que o ministério de Paulo Renato era "um paquiderme'', que a política de saúde pública era feita "na mais absoluta esculhambação" (o ministro era Adib Jatene) e que o Comunidade Solidária, gerido pela primeira-dama Ruth Cardoso. era inoperante. "Essa, desculpe a palavra, masturbação sociológica me irrita. porque não chega a nenhum resultado", disse ele a respeito da entidade comandada pela esposa do presidente da República.

Durante a corrida eleitoral, FHC confessou a amigos que iria nomeá-lo para um cargo fora do Planalto, porque o julgava muito brigão para trabalhar no Gabinete Civil ou na Secretaria Geral da Presidência. Quem conhece o presidente sabe que ele dizia isso apenas para aplacar a ira das vítimas de Sérgio Motta. Pode-se definir o ministro como o integrante do governo que vocalizava de maneira direta, muitas vezes rude, aquilo que os amigos do presidente pensavam e ninguém mais tinha coragem de falar. Muitas vezes, suspeitava-se de que era o próprio FHC quem estava pensando pela boca de Motta. Como quem falava as barbaridades era alguém que privava da intimidade de FHC, seus inimigos aprenderam a vê-lo com algum temor. Tanto poder tinha Sérgio Motta que, mesmo de um episódio capaz de derrubar qualquer outro ministro, ele saiu sem nenhum arranhão. No ano passado. a imprensa divulgou o conteúdo de fitas com conversas gravadas em que quatro deputados do PFL do Amazonas e do Acre da ter recebido 200.000 reais para votar a favor da emenda da reeleição. Eles diziam que o dinheiro havia sido entregue pelo governador Amazonino Mendes e sugeriam que isso teria ocorrido a mando de Motta. Motta teve a sabedoria de ficar quieto por alguns dias e o assunto caiu no esquecimento, mesmo porque as insinuações não tiveram desdobramento no terreno dos fatos e das provas.

O governo agora teme pela falta de alguém com tamanha capacidade de trabalho. Para ocupar as cadeiras que Motta deixa vazias, Fernando Henrique indicou três nomes. Determinou que o Ministério das Comunicações fosse entregue ao atual secretário executivo, Juarez Quadros. Para coordenar a privatização da Telebrás, designou Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente do BNDES. E, para ocupar o lugar que caberia a Serjão como coordenador da campanha da reeleição, Fernando Henrique Cardoso escolheu Eduardo Jorge Caldas, ex-secretário-geral da Presidência. A direção do PSDB também está tomando as suas providências. Reuniu-se duas vezes na semana passada chegando à conclusão de que talvez não fosse prudente incluir o ministro nos planos do partido para a campanha e decidiram pressionar o governador do Ceará, Tasso Jereissati. Querem que ele ocupe o seu lugar na coordenação política do governo. O encaminhamento da discussão mostra como é difícil substituir o trator. Como Tasso quer reeleger-se governador e não está disposto a abdicar da candidatura, chegou-se a sugerir que, depois de eleito governador, ele renunciasse para assumir o Gabinete Civil no segundo mandato do presidente. Clóvis Carvalhos atual ocupante do cargo, seria deslocado para as Comunicações.

Dado a jornadas superiores a doze horas diárias, nos últimos tempos o excesso de trabalho começou a cobrar sua fatura do organismo do ministro. Motta sofre de hipertensão, tem diabete e recebeu três pontes de safena e uma de mamária. Pior de tudo, é um tipo de paciente totalmente indisciplinado, daqueles que levam a vida de maneira despreocupada. Nem o infarto que sofreu em setembro de 1995 foi suficiente para transformá-lo num paciente seguidor das prescrições médicas. Aos 57 anos, obeso (tem 1,79 metro de altura e pesa 115 quilos), fanático por comida pesada e fã de um drinque no final do expediente, Motta já contou a amigos que tem o hábito de aumentar por conta própria as doses de insulina que ingere, acreditando que assim pode abusar da feijoada e do uísque. Fernando Henrique sabia que os problemas pulmonares do amigo eram graves. Só não esperava que seu quadro piorasse tanto.

O quadro do ministro é grave porque ele sofre, ao mesmo tempo, de duas doenças de causas desconhecidas: uma inflamação e uma infecção. Para tratar uma, os médicos são obrigados a ministrar remédios que atrapalham o tratamento da outra, e vice-versa. o processo inflamatório produz cicatrizes nos pulmões, dificultando a captação de oxigênio. Isso torna a respiração pesada e ineficiente. O ministro tem metade do pulmão direito comprometido pela doença. Acompanhado de um tratamento à base de oxigênio artificial, ministrado com o auxilio da máquina portátil que Motta comprou, o ministro poderia levar uma vida relativamente normal, desde que se cuidasse. A infeção é que torna o quadro extremamente perigoso. "As principais causas de morte entre pessoas com um quadro desse tipo são as infeções secundárias", explica o pneumologista Ronaldo Adib Kairalla, da Universidade de São Paulo.

Como não sabem se a infecção que atinge o ministro é causada por vírus, bactérias ou fungos (nenhum exame até agora foi considerado conclusivo), os médicos são obrigados a tratá-lo com uma combinação de vários tipos de remédio e aguardar o resultado. Quando a febre do paciente cai, sabe-se que a infecção está cedendo. Motta alterna períodos de febre alta e febre baixa, mas nos últimos dias da semana não passou uma hora sequer sem febre. A preocupação dos médicos na semana passada era que a infecção precisava ser debelada. As chances de sobrevivência de um paciente de UTI depois de um dia preso ao respirador artificial é de 90%. Após dez dias de internação, cai para 60%.

Na manhã de sexta-feira um raio X dos pulmões do ministro revelava que eles estavam completamente inflamados, "brancos" no jargão médico. Isso significa que haviam perdido a capacidade de respirar normalmente. Quadros assim .são considerados extremamente graves e de difícil recuperação. A equipe médica foi obrigada a bombear no paciente a concentração máxima de oxigênio possível, 100%, um tratamento que acaba sendo prejudicial ao organismo. "Doses de oxigênio superiores a 50% por períodos acima de três dias podem lesar o tecido pulmonar", explica o pneumologista Carlos Alberto de Castro Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo. Quanto mais o tempo passa nessas condições, maior é a possibilidade de os pulmões ficarem comprometidos definitivamente, o que só aumenta o risco de vida do ministro.
22/04/1998 00:00
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