23 de Janeiro de 2021
A corrida é um barato - Revista Veja São Paulo/SP
Um esporte prático e econômico atrai cada vez mais paulistanos interessados em manter a forma e melhorar a saúde

Marcella Centofanti

Há duas semanas, num domingo chuvoso, o VJ Luiz Thunderbird, da MTV, acordou às 7 horas para correr. Participou, com 5.000 paulistanos, da prova de abertura do Circuito Corpore 2002. Completou o percurso de 12 quilômetros em uma hora e sete minutos, meia hora atrás do primeiro colocado. Acrescentou uma medalha às cerca de trinta que estima já ter conquistado. Mais uma vez, sentiu-se vitorioso. Thunderbird é outro homem desde que descobriu a corrida, três anos atrás, após largar as drogas e desintoxicar-se numa clínica. Estava com 110 quilos. "Fui a convite de um amigo à pista do Ibirapuera", lembra. "Depois de 200 metros, estava exausto." No mesmo dia, Thunderbird decidiu parar de fumar, hábito que cultivou por vinte anos. Iniciou um treinamento com o badalado técnico Marcos Paulo Reis e, passados doze meses, participou da São Silvestre. Não parou mais. Seu momento de glória foi cruzar a linha de chegada da Maratona de Nova York: "Nenhuma droga me deu a mesma sensação de êxtase que senti quando concluí aqueles 42 quilômetros". Hoje, 22 quilos mais magro, o VJ treina quatro vezes por semana, segue uma dieta equilibrada e está escrevendo um livro em que relata sua virada. "A corrida me deu qualidade de vida, disciplina e vontade de superar desafios", afirma.

Thunderbird é o tipo de pessoa que os corredores chamam de convertido. O termo é usado para aqueles que se apaixonam pela atividade e mudam suas atitudes – para melhor – por causa dela. Em boa parte do tempo, só pensam naquilo. Mais até que os adeptos de outros esportes, logo se viciam em corrida. Não precisam de parceiros, locais ou horários específicos. Nem entrar para uma academia, associar-se a um clube ou comprar equipamentos caros. Bastam um par de tênis e motivação. Em geral, têm boa auto-estima e adoram espalhar aos quatro ventos como a corrida lhes foi benéfica. Embora não se saiba com precisão o número, o fato é que eles crescem a cada ano. Um dos maiores termômetros são as inscrições nas principais provas da cidade. A quantidade de participantes dos eventos promovidos pela associação Corredores Paulistas Reunidos (Corpore) dobrou nos dois últimos anos: de 17.721, em 1999, para 36.519, em 2001. No mesmo período, os inscritos na Maratona Pão de Açúcar de Revezamento saltaram de 8.400 para 14.152. Na São Silvestre o fenômeno é semelhante. Em 1998, eram 12.300 pessoas. Em 2001, foram 17.000.

Tais provas são consideradas de média distância. Com alguns meses de prática é possível disputá-las. Foi o que aconteceu com Daniella Cicarelli, garota-propaganda da Pepsi, "convertida" há um ano. Três meses depois de começar a treinar, correu 5,5 quilômetros na Maratona Pão de Açúcar de Revezamento. Sua próxima meta é a Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, em agosto (21 quilômetros). A modelo faz natação, ciclismo, musculação e boxe. Como viaja muito, prefere mesmo correr. "Sempre levo o tênis na mala", diz. "O esporte dá uma incrível sensação de liberdade." Além dos que competem regularmente, há na capital milhares de paulistanos que simplesmente correm sozinhos, sem a preocupação de tomar parte em provas.

Transformar-se em corredor não é tarefa fácil para ninguém. "Confesso que era chato. Não agüentava quinze minutos", revela o apresentador Marcos Mion. "Com o tempo, funciona como uma terapia. Você estabelece metas para o treinamento e acaba incorporando esse método nas outras atividades." Mion é corredor há dois anos. Atualmente, pratica quatro vezes por semana com Felipe Pita, seu professor. Ele, assim como a VJ Adriana Wagner, a "Didi", gosta de correr ao ar livre. "É mais agradável que na esteira", afirma Didi, de 26 anos. Ela estreou há três anos, incentivada pelo marido. Tornou-se mais uma convertida típica. "A corrida é um desafio pessoal, uma competição com você mesmo", diz. Embora procure superar-se, ela respeita seus limites. "Não gosto de ficar dolorida e com a língua de fora no fim do exercício." Por causa disso, assegura que nunca teve uma contusão, o que é raríssimo entre corredores. "O índice de lesões é alto", relata o fisiologista Turíbio Leite de Barros Neto, professor da Universidade Federal de São Paulo. "A pessoa quer sempre correr mais e com maior velocidade. Acaba se esquecendo de seus limites e isso causa a lesão."

Para quem não tem treinador, a probabilidade de sofrer uma contusão é ainda maior. A médica Alessandra Zanoni, adepta há cinco anos, nunca teve um técnico. Machucou o joelho e fez sessões de fisioterapia. "Acho que pisava errado", diz. Alessandra converteu-se para melhorar seu condicionamento nos jogos de vôlei na faculdade. Ela vai com amigos ao Ibirapuera nos fins de semana, logo cedo, para correr 6 quilômetros. Evita chegar depois das 10 horas, quando o parque fica cheio e inviável. Como o Ibirapuera, a Cidade Universitária é muito procurada pelos corredores. Fica tomada por adeptos e técnicos aos sábados e domingos. É lá que Daniel Trzesniak, aluno de mestrado do Instituto de Física da USP, pratica em companhia de dois amigos. Desde que começou a treinar com empenho, há dois anos e meio, competiu em sete provas. "Pode parecer um tédio, mas não é", afirma. "Você vê gente nova, conhece lugares e faz amizades."

Algumas pessoas são absolutamente viciadas. O engenheiro Alfredo Donadio, de 51 anos, é uma delas. Corre todos os dias, faça chuva ou faça sol. De segunda a sexta, corre entre 10 e 16 quilômetros, na hora do almoço, numa pista de cooper próxima ao seu escritório, em Alphaville. Aos sábados, completa no mínimo 20 quilômetros, geralmente na USP. Domingo é o dia light. Encontra-se com os amigos no Ibirapuera para trotar durante "uma horinha". Donadio tem catorze maratonas em seu currículo: seis em Nova York, seis em São Paulo, uma na Disney e outra em San Diego, na Califórnia. Há três anos, participou da ultramaratona de 90 quilômetros (sim, 90!), realizada na África do Sul. Donadio iniciou-se no esporte há quinze anos, para perder os quilos que ganhou por parar de fumar. Aconselhado por um médico, caminhava trinta minutos diários. Não demorou a arriscar uns trotes, passar definitivamente para a corrida e virar voluntário da Corpore, considerada uma das responsáveis pelo crescimento do esporte na cidade. É diretor de comunicação da entidade, que não tem fins lucrativos e completou vinte anos na semana passada. "Correr mudou minha personalidade", garante. "Fiquei mais perseverante, minha auto-estima aumentou e aprendi a enfrentar os problemas."

O médico Ewaldo Russo, diretor-superintendente do laboratório Fleury, é tão viciado quanto ele. Completa 70 quilômetros semanalmente. Treina de segunda a quinta, das 5h45 às 6h45, e nos fins de semana. "Planejo o dia enquanto corro", diz. "Quando viajo, escolho hotéis que sejam próximos a locais interessantes para correr", afirma. Para ele, trata-se de um evento social. "Faço amizades e mantenho contatos." Sente-se orgulhoso do esporte que pratica. Em seu escritório, exibe fotos emolduradas de provas internacionais que disputou, uma medalha e um certificado da Maratona de Nova York. "Mudei minhas atitudes profissionais por causa da corrida", conta. "Ganhei disciplina e passei a estabelecer metas para a profissão." Há quatro anos, o Fleury é patrocinador das provas da Corpore. "O laboratório associa sua imagem à saúde e não à doença", diz. Outro mecenas da atividade é o Grupo Pão de Açúcar, que a incentiva entre os funcionários e promove provas em São Paulo. "Quem pratica se conhece melhor, fica mais confiante, aprende a superar desafios, e tudo isso melhora o rendimento no trabalho", afirma João Paulo Diniz, vice-presidente do conselho do grupo. João Paulo, que é triatleta, corre cinco ou seis vezes por semana, mas não se considera viciado. "É prazeroso, prático e eficiente para manter o corpo", diz. A analista de desenvolvimento Debora Amaral, de 24 anos, funcionária do Pão de Açúcar, chega a treinar duas vezes por dia, na hora do almoço e à noite. É tão assídua na academia da empresa que ganhou como prêmio uma passagem para os Estados Unidos. Seu apelido, na família, é Forrest Gump – o personagem de Tom Hanks que batia recordes de corrida no filme homônimo. "Eu me sinto renovada depois de correr", explica. "Sou viciada mesmo."

Dez dicas básicas para praticar corrida

Check-up – Faça um exame de ergoespirometria, que mede a capacidade pulmonar, a cardíaca e a muscular. Os resultados determinam se você pode correr e quanto pode correr.

Vá devagar – Se você não pratica exercícios há algum tempo, comece pela caminhada.

Alimentação – Correr de estômago vazio pode causar hipoglicemia e perda de massa muscular em vez de gordura. Mas não exagere na quantidade de comida.

Alongamento – Faça antes da corrida, para preaquecer a musculatura, e depois, para relaxar os músculos trabalhados.

Hidratação – Uma hora de exercício elimina de 1 a 2 litros de água. Para evitar a desidratação, beba um copo de água ou de líquidos isotônicos a cada quinze minutos.


Tênis – Várias marcas oferecem modelos específicos. Existem opções indicadas para pés pronadores, que pisam para dentro, e para supinadores, que pisam para fora. O tênis começa a perder suas qualidades depois de 450 quilômetros. Intercale pelo menos dois pares, pois o uso contínuo pode deformar o calçado.

Roupa – Use roupas confortáveis e leves. Agasalhos pesados não queimam mais calorias. Dê preferência aos tecidos inteligentes, que sugam o suor e mantêm a temperatura do corpo. Existem meias especiais, que são mais curtas, sem costura e reforçadas nos calcanhares e dedos.

Progresso – Não aumente em mais que 5% a quilometragem semanal. Se você correr uma hora por dia, descanse 24 horas entre os treinos. A dor é o melhor termômetro para saber se você está exagerando. Nesse caso, pare e procure um médico.

Piso – Alterne corrida em terrenos duros (como asfalto e concreto) com outra em pisos macios (como grama e terra).

Aula – Se puder, contrate um professor. Seu rendimento será melhor e você correrá menos riscos de lesão.

Fontes: Marcos Paulo Reis Assessoria Esportiva
e Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista
e professor da Universidade Federal de São Paulo
10/04/2002 00:00
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