20 de Janeiro de 2019
Plano de saúde nasce em um parto apressado GAZETA MERCANTIL/SP
Em 1961, surgia, nas calçadas da Praça do Correio,
a Samcil, primeira empresa a adotar a
concepção moderna de medicina de grupo.

ALTAIR SILVA

Entre as muitas histórias que fascinam a menina Marcela, de 8 anos, está aquela em que seu avô, o médico Luiz Roberto Silveira Pinto, lhe conta o parto de emergência que realizou, ainda estudante, dentro de uma ambulância, em frente à agência central dos Correios em São Paulo, esquina das avenidas são João com Prestes Maia.

O episódio, ocorrido há 38 anos, no início de 1961, significava mais do que uma prova de fogo na iniciante carreira profissional do futuro doutor Luiz, então formando da Escola Paulista de Medicina. Ele não atinava que naquele momento, às 5 horas de uma friorenta manhã paulistana, nascia junto com aquele menino uma revolução nos sistemas de atendimento médico no Brasil.

Coisas do destino. O menino que ele trazia ao mundo era filho de um funcionário das Emissoras Unidas, poderoso grupo de comunicação que reunia as emissoras de televisão e rádio Record no Estado de São Paulo. Exatamente a empresa que viabilizaria a Samcil (Serviço de Assistência Médica ao Comércio e Indústria), projeto pioneiro de fornecimento de serviços médicos a empresas criado semanas antes pela ousada cabeça empreendedora do doutorando Luiz.

É ele quem conta: "Eu tinha então 24 anos e dava plantões no Hospital Modelo, no bairro da Liberdade. Meu senso de observação levou-me a perceber uma efetiva oportunidade de se criar um sistema alternativo de saúde no Brasil". Rápido na passagem da idéia à prática, o doutorando montou no dia 29 de dezembro de 1960 a Samcil, o primeiro convênio médico a funcionar no País, mais ou menos nos moldes de hoje.

Agora generalizados, os planos e seguros-saúde eram pouco utilizados na década de 60. Raras empresas garantiam a seus funcionários e familiares o atendimento médico e hospitalar na rede particular. Além do sistema funcionar de forma bem diferente. A empresa que tinha interesse em oferecer o benefício firmava um acordo diretamente com um hospital, pagando a cada mês pelos serviços prestados (consultas, exames e internações).

Era o que acontecia com as Emissoras Unidas. Até o final de 1960, os seus 1,2 mil funcionários e dependentes (no total, cerca de 4 mil pessoas) eram atendidos no Hospital Modelo, o mesmo que despachou o plantonista Luiz para a façanha do parto na calçada dos Correios.

Acontece que Luiz era um residente atento e atilado. Conversando com diretores da Emissoras Unidas que procuravam o hospital, percebeu uma insatisfação com o contrato acertado com o hospital. "Os executivos reclamavam que não tinham como planejar o custo, pois a conta variava a cada mês", recorda o médico.

O espírito empreendedor de Luiz despertou. E junto veio a sorte, sempre decisiva nessas ocasiões. No caso, valeu o fato de ser amigo de Nilton Travesso, na época diretor de programas na TV Record, que o levou pessoalmente, no início de dezembro de 1960, ao comandante do grupo, Paulo Machado de Carvalho. O empresário era um orgulho nacional, festejado como o "Marechal da Vitória" no histórico feito da primeira conquista brasileira de uma Copa do Mundo de futebol nos campos da Suécia em 1958.

O doutorando Luiz levava para esse encontro uma proposta então revolucionária: a minuta do contrato estipulava que a Emissoras Unidas pagaria um valor "per capita" mensal e a Samcil (na verdade, o nome ainda não estava definido) arcaria, em contrapartida, com os custos de atendimento médico de seus funcionários. Carvalho gostou da idéia e assinou um contrato de experiência de 90 dias, renovado, de forma permanente, em abril de 1961.

O atual sistema alternativo de saúde brasileiro conta com aproximadamente 1,5 mil grupos médicos, compreendendo 740 empresas de medicina de grupo – categoria em que a Samcil se encaixa - , 360 Unimeds (cooperativas médicas), 300 sistemas de autogestão (a empresa monta seu próprio plano), e 40 companhias de seguro-saúde.

Juntos, esses grupos atendem perto de 41 milhões de usuários, tendo movimentado em 1998 o equivalente a US$ 16 bilhões. A Samcil, com 500 mil associados, contribuiu com US$ 220 milhões para a receita total do setor. E a expectativa da empresa é fechar 1999 com um faturamento de US$ 280 milhões.

Na base desse bom desempenho, estão os cuidados que o doutor Luiz soube dispensar à própria saúde da empresa, evitando, por exemplo, dar passos maior do que as pernas. Cortou pela metade na hora certa, quando era a maior do setor e atuava em todo o Brasil, o número de associados da Samcil na década de 70. "Houve um gigantismo e percebi que isso não era saudável".

De forma realista, ele decidiu vender os negócios em outros estados e concentrar as atividades em São Paulo, mais especificamente na capital e na região da grande São Paulo e baixada santista. Mas, mesmo com atuação regionalizada, a Samcil continua uma das maiores empresas do setor, ocupando a sétima posição no ranking nacional da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge).

Passados 39 anos, o presidente da Samcil revela que no dia em que encontrou-se com o presidente da Emissoras Unidas estava bem assustado. Um dos motivos: até poucos dias antes da assinatura do contrato ainda não estava formado e, portanto, não tinha o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM).

De fato, ele formou-se no dia 20 de dezembro de 1960 e, nove dias depois, registrou o nome Samcil. Aliás, o nome da empresa foi sugerido pela esposa, uma alemã naturalizada brasileira apelidada carinhosamente de Lolly. "Espalhei sobre a mesa uma série de siglas que pudessem ser associados com medicina, indústria e comércio e, ao ver o nome Samcil, Lolly disse: "é essa".

Além da falta do registro no CRM, preocupava o futuro doutor a questão de quando cobrar. Prático, resolveu a questão de forma simples: pediu para ver as últimas faturas da Emissoras Unidas e dali tirou uma média.

O item seguinte na lista de preocupações era comunicar ao diretor do hospital Modelo, o doutor Castilho, o resultado de sua conversa com Paulo Machado de Carvalho. Recebeu dele, além do estímulo moral, um apoio concreto, na forma de uma sala dentro do hospital, onde o doutor Luiz passou a atender pessoalmente os funcionários da Emissoras Unidas.

Ainda no primeiro trimestre de 1961 a Samcil conquistou mais quatro clientes, todos revendas de automóveis conquistadas dentro de uma estratégia agressiva de vendas porta a porta, que se valia principalmente da ajuda de amigos. O dono de uma dessas revendas, por exemplo, era sogro de um primo do doutor Luiz.

Só em meados de 1964, com o trabalho da empresa mais conhecida, foi fechado o primeiro grande contrato: a fábrica de automóveis Wyllis Over Land, que funcionava em São Bernardo do Campo e empregava 10 mil pessoas. Dali para frente a carteira de grandes clientes só fez crescer, logo incluindo empresas como Philips, Rhodia e Volkswagem.

Esse crescimento decorreu principalmente das mudanças efetuadas no sistema da Previdência Social em 1964, quando os vários institutos oficiais foram fundidos em um só: o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que deu lugar ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Além disso, outro fator favorável ao crescimento do mercado foi a decisão que concedia às empresas que ofereciam assistência médica privada aos seus funcionários o direito de descontar até 20% do valor no recolhimento à Previdência.

Com esse cenário, era natural que os convênios médicos se multiplicassem, na década de 60. Logo, apareceram no mercado nomes como Amico e Senasa, primeiro seguro-saúde no País, mais tarde absorvido pela Golden Cross.

O doutor Luiz estava atento, naturalmente, ao rápido aumento da concorrência e cuidava para não ficar para trás. A sala cedida pelo doutor Castilho tornou-se pequena depois de dois anos e a Samcil mudou-se em 1962 para a Praça Osvaldo Cruz, no bairro do Paraíso, onde foi montada a sua primeira clínica própria.

Mas o doutor Luiz não tinha esquecido a ligação com o Hospital Modelo. Tanto que em 1968, depois de vender apartamentos e carros, "raspar" todas as economias e ainda levantar dinheiro emprestado em bancos, comprou o velho hospital.

Os seus planos eram de expansão, o que foi viabilizado a partir de 1970, com a abertura de capital da Samcil. Com os recursos obtidos em bolsa e na captação de financiamentos, além de recursos próprios, a Samcil passou a comprar e construir hospitais, formando a atual rede de cinco estabelecimentos. Além disso, a organização conta com 22 unidades de atendimento e 16 prontos-socorros próprios espalhados entre a capital paulista, baixada santista e a região do ABC, e emprega 2,5 mil pessoas. A estrutura completa que atende os 500 mil associados, no entanto, é bem maior, abrangendo 154 hospitais, 200 laboratórios e 2.100 médicos credenciados.

Hoje, quando fala da Samcil, o doutor Luiz confessa-se orgulhoso de Ter chegado onde chegou. Mas emoção maior ainda sente quando a netinha Marcela pede para que ele repita a história do parto do menino dentro da ambulância. "Vô, conta como é que foi mesmo". Era um belo começo.
22/03/1999 00:00
Copyright ©2006-2013 - Departamento de Comunicação Institucional - Universidade Federal de São Paulo
Rua Sena Madureira, 1500 - 4º andar CEP 04021-001 - Tel.: (11) 3385-4116