14 de Novembro de 2018
Um alegre despertar REVISTA ÉPOCA/NACIONAL
O que fazer para garantir boas noites de sono e acordar bem-disposto na hora certa, segundo o relógio biológico

Acaba de ser divulgada uma pesquisa realizada em estradas do Rio Grande do Sul com mil motoristas - 333 profissionais e o restante amadores. Ela confirma algo já sabido pelo senso comum, mas rejeitado pela correria dos tempos modernos: dormir uma parte do dia é indispensável para viver bem as outras duas. Ou seja, em um estado com alto índice de acidentes nas estradas, 74,2% dos motoristas entrevistados admitiram ter sentido sono ao dirigir mesmo que raramente. Do total, 25,4% já esteve envolvido em desastres e 20,1% atribuiu a causa à sonolência ou ao cansaço. Conclusão da pesquisa que, não por coincidência, servirá de base para a campanha "Acorda, tchê! Dirija alerta e chegue vivo": dormir bem é a primeira condição para enfrentar os desafios de cada dia.

Para muitas pessoas, no entanto, esse simples ato é impensável. Ou porque o trabalho, os estudos - enfim, o estresse - impedem, ou porque são vítimas de um dos vários distúrbios do sono. Por isso, passam o dia bocejando, sofrem com acessos de irritação e constante fadiga, sem possibilidade de concentração. Esses sintomas de carência de sono podem ser fatais, como se verificou na pesquisa gaúcha. Nos Estados Unidos, 4% das mortes nas estradas são atribuídas ao sono do condutor, fator responsável também por 58% dos acidentes envolvendo apenas um veículo.

No Brasil, o sono ou a falta dele é uma questão pouco estudada. Apesar disso, informa o neurologista gaúcho Denis Martinez, um dos primeiros a se dedicar ao tema, estima-se que 30 milhões de brasileiros tenham algum problema com o travesseiro. Um dos raros trabalhos a respeito é o da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Concluído há dois anos, com uma amostragem restrita à cidade de São Paulo, revelou que 50,6% dos entrevistados eram insones. É um resultado impressionante.

É verdade que o brasileiro freqüentemente confunde o problema. O sono é uma atividade natural do corpo. E tem um ritmo certo para cada pessoa, comandado pelo vaivém da luz. "O relógio biológico está em um processo continuo de sincronização", afirma o professor Luiz Menna-Barreto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Isso já pode ser observado em bebês de 4 meses de vida. Ao crescer, incluem-se em um dos seguintes grupos definidos pela necessidade de sono: grande (período de 12 horas de repouso diário), pequena (em média, 4 horas) e mediana (8 horas), na maioria. Da mesma forma, há três grupos de pessoas quanto à preferência de período: o diurno, o noturno (20%, divididos igualmente) e o intermediários, na maioria, nem madrugador nem dorminhoco pela manha.

Quem tem dificuldade de levantar da cama ao raiar do dia injustamente é chamado de preguiçoso, como cansou de ouvir o farmacologista Nylson Gomes da Silveira Filho, 50 anos, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Ele só descobriu que era vespertino na faculdade, ao observar as indicações de seu organismo. " Vivemos sob a ditadura dos destros e dos matutinos", comenta com bom humor, certo de ter sido sempre melhor aluno das aulas da tarde que da manhã. Hoje, não sente nenhum constrangimento em chegar mais tarde ao trabalho porque acorda às 10 horas. Ele compensa a defasagem na hora da saída. Não raro, estende o período produtivo até as 2 ou 3 horas da madrugada.

Esse tipo de ajuste nem sempre é viável porque a maioria das pessoas trabalha em empresas com horários pouco flexíveis. O jeito é usar, quando possível, um expediente muito simples - a soneca depois do almoço. Essa, aliás, é outra necessidade ditada pelo ciclo biológico. Ao longo das 24 horas do dia, além do sono prolongado, o corpo pede um descanso breve: não mais de 20 minutos. Até o presidente da República, Fernando Henrique, faz esse cochilo. As vezes também se torna uma necessidade de quem trabalha demais. É o caso do professor de História Francisco Eduardo Bodião, de 27 anos. Entre o turno de aulas da manhã e as várias atividades da tarde, ele muitas vezes tem de parar o carro para uma soneca. Volta para casa quase à meia-noite, seja por estar fazendo mais um curso universitário, seja porque a cama, que deveria ser um bálsamo, se torna um tormento para ele. Tem dificuldade para relaxar, embora tente arduamente.

Sem saber, Francisco está fazendo o contrário do que indicam os especialistas para enfrentar esse problema. "Não se faz força para dormir", adverte o neurologista Flávio Aloé, do Centro de Sono do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Ele lembra que o estresse e as profissões que exigem turnos irregulares de trabalho desorientam o relógio biológico. Entre as conseqüências desse desequilíbrio está a insônia. Em si mesma, não é uma doença, mas um sintoma. Pode ser causada por bronquite, asma, diabetes, úlceras, reumatismos, depressão e outros males, até mesmo psicológicos, como bem sabe a professora paulista Nilza Garcia Miranda, de 50 anos. Ela começou a apresentar o problema logo após a morte da mãe. Antes de descobrir um centro especializado, submeteu-se a vários tratamentos sempre com indicação de tranqüilizantes que, ao longo do tempo, não surtiam mais efeito.

Medicamentos à base de benzodiazepínicos costumam causar dependência e só devem ser tomados com receita médica. "Recebemos muitos pacientes que admitem ser dependentes de hipnóticos", relata a neurologista Dalva Poyares, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Recentemente foi lançado no Brasil o representante de uma nova classe de remédios que preserva as fases naturais do sono e não surte o mesmo efeito. O princípio ativo zolpiden foi desenvolvido pelo grupo francês Synthélabo para o tratamento de distúrbios do sono e pode ser usado contra o desconforto causado por longas viagens internacionais e mudanças bruscas de fuso horário. Mas também só deve ser tomado com orientação médica.

Medicamentos de última geração, aliás, são apenas coadjuvantes no tratamento dos males do sono. Alguns desses males são tão graves que podem comprometer o sistema circulatório, como acontece com as miniparadas respiratórias chamadas de apnéias ou obstruções da faringe. Esse problema torna o sono uma tortura, e a vítima sofre de sonolência crônica durante o dia. Sem saber o que tem, muita gente leva fama de preguiçosa, quando está mesmo é doente. Para ter um diagnóstico correto, o ideal é submeter-se à polissonografia, com equipamento computadorizado, durante a noite. Está à disposição em um dos cerca de 80 laboratórios do sono do país, na maioria particulares. Ainda não coberto por boa parte dos convênios médicos, o tratamento custa caro - só o exame, em média, R$ 500.

Fundador da Associação Brasil Apnéia do Sono, o jornalista Márcio Durigan, de 33 anos, lembra ser esse um problema que aflige principalmente os obesos. Durigan tem 1,80 metro e pesa 160 quilos. Ele usa o CPAP, aparelho parecido com uma máscara contra gases que injeta oxigênio durante as paradas respiratórias. O incômodo é compensado pela eficácia. Aliviado, Durigan não lamenta o fato de ter de usá-lo para sempre. Está livre dos roncos que perturbavam sua mulher. Roncadores podem, também, ser submetidos a cirurgias - que custam até R$ 8 mil -, mas sua eficácia é contestada. Estudo realizado pela Unifesp com 50 apnéicos operados revela melhora em apenas 28% dos casos.

Para o médico gaúcho Denis Martinez, que já atendeu mais de 4 mil pacientes, problemas de sono podem agravar doenças psíquicas. Segundo ele, alguns doentes sem nenhuma melhora no tratamento tiveram de ser internados em hospitais psiquiátricos. São hipóteses ainda não confirmadas. Certo mesmo é que o sono, uma vez manifestadas as condições para que se apresente, é indispensável. Nada é capaz de detê-lo. Experiências feitas em Israel, durante os bombardeio da Guerra do Golfo, mostraram que pessoas acordadas por alarmes voltavam a dormir no máximo 10 minutos após refugiar se em abrigos antiaéreos. Sabendo-se disso tudo, o jeito é tentar relaxar. E aproveitar essa irresistível fonte de prazer que é dormir.
03/08/1998 00:00
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